Por Raul Cândido – Psicanalista | Perito | Professor |
Atua em inteligência cibernética | Investigação digital
Quando se fala em guerra híbrida, não se está falando apenas de guerra no sentido militar, nem apenas de ataque cibernético. Trata-se de uma forma de disputa que pressiona uma sociedade em várias frentes ao mesmo tempo: política, econômica, informacional, cultural e técnica. Isso inclui desinformação, coerção econômica, manobras políticas, influência sobre a opinião pública, pressão diplomática, ataques cibernéticos e, em certos contextos, também formas mais sutis de atração e persuasão, aquilo que a literatura geopolítica descreve como soft power. O conflito deixa de atingir apenas território ou infraestrutura e passa a atingir confiança, percepção, estabilidade e capacidade de decisão.
É nesse cenário que a inteligência precisa ser lida de outro modo. Não basta pensar apenas em coleta de dados, indicadores técnicos ou artefatos maliciosos, porque a disputa passa por comportamento, linguagem, contexto, escolha e intenção. A técnica continua central, mas o que realmente importa é a forma como ela é usada, disputada e interpretada por pessoas.
É a partir daí que proponho a expressão Humint Cyborg.
O termo “ciborgue”, aqui, não tem sentido futurista. Não se trata de imaginar um corpo fundido à máquina de forma espetacular. A referência é Donna Haraway, mas a ideia pode ser trazida para algo mais direto: o humano moderno já não vive fora da técnica. Trabalha por meio dela, registra a vida por meio dela, comunica por meio dela, percebe o mundo por meio dela. Isso não começou agora. A digitalização apenas tornou mais visível uma condição que já vinha sendo construída há muito tempo. Nesse sentido, falar em ciborgue é reconhecer que humano e tecnologia já operam juntos na vida social.
Quando se trata de Humint, estamos falando da forma mais antiga de inteligência e, talvez por isso mesmo, de uma das mais exigentes. Estamos falando da inteligência a partir de fontes humanas, daquilo que pode ser compreendido a partir de pessoas, de seus vínculos, de sua linguagem, de suas contradições e de sua forma de agir. Isso exige anos de preparo no estudo do comportamento humano, tanto no plano individual quanto no social. Mesmo quando o cenário envolve plataformas, redes, computadores ou infraestruturas críticas, o centro continua sendo o ser humano, a forma como usa a tecnologia, como se expõe por meio dela, como produz sinais dentro dela e como deixa traços do que pensa, quer ou pretende fazer.
O caso WannaCry ajuda a tornar isso mais visível. O episódio ficou marcado pela escala do impacto e pela exploração de uma vulnerabilidade do Windows, mas houve uma camada menos lembrada e bastante reveladora: a análise linguística das notas de resgate. Pesquisadores observaram diferenças importantes entre as versões em vários idiomas e chamaram atenção para a maior naturalidade da versão em chinês. Isso não resolve sozinho a atribuição de autoria, nem deveria, mas mostra algo importante para o perfilamento de ameaças: o texto também deixa vestígios. A análise técnica mostra como o ataque funciona, a linguagem pode mostrar traços humanos que o ataque carrega.
Esse ponto importa porque ameaça não é só mecanismo, é também conduta. Há escolha de alvo, timing, padrão de adaptação, forma de pressão, forma de apresentação. É nesse nível que Humint, linguística forense e inteligência cibernética deixam de parecer áreas separadas e passam a fazer mais sentido em conjunto.
Há um exemplo simples que ajuda a iluminar essa lógica sem sair demais do eixo. O estudo recente sobre um gavião que aprendeu a usar o padrão de um cruzamento com semáforo para caçar não interessa pela curiosidade em si. O que interessa é o princípio. O animal percebe uma regularidade do ambiente, entende seu ritmo e transforma isso em vantagem. O valor do exemplo está aí. Inteligência não é apenas informação acumulada, é leitura de contexto, percepção de padrão e uso estratégico do comportamento do outro.
Quando isso é trazido para o campo humano, a questão ganha outra gravidade. Modelos excessivamente técnicos tendem a capturar bem o que é mensurável, mas deixam escapar uma parte importante da cena: as variáveis humanas. E são justamente elas que explicam adaptação, erro, improviso, linguagem, oportunidade e decisão. Em tempos de guerra híbrida, isso pesa ainda mais, porque o conflito também recai sobre áreas das quais a vida comum depende diretamente, como energia, transporte, saúde, comunicações e logística.
No fundo, Humint Cyborg tenta nomear exatamente isso. A tecnologia não retirou o humano da inteligência. Tornou ainda mais evidente que ele continua no centro. Quem trabalha com inteligência hoje não lê apenas sistemas. Lê pessoas dentro de sistemas, comportamento dentro de infraestrutura, linguagem dentro de ambientes técnicos.
Escrevi este artigo apenas para ilustrar o tema que abordei em minha palestra na FATEC Zona Leste, na última segunda-feira. O debate segue aberto.
Fontes e Referências
NATO — Countering hybrid threats
https://www.nato.int/en/what-we-do/deterrence-and-defence/countering-hybrid-threats
NATO — Brussels Summit Communiqué
https://www.nato.int/cps/en/natohq/official_texts_156624.htm
Council of the European Union — Increasing resilience and bolstering capabilities to address hybrid threats
https://www.consilium.europa.eu/en/policies/cybersecurity/hybrid-threats/
Joseph S. Nye Jr. — Public Diplomacy and Soft Power
https://hks.harvard.edu/publications/public-diplomacy-and-soft-power
Donna Haraway — A Cyborg Manifesto
https://warwick.ac.uk/fac/arts/english/currentstudents/undergraduates/modules/fictionnownarrativeme…
SecurityWeek — Linguistic Analysis Suggests WannaCry Authors Speak Chinese
https://www.securityweek.com/linguistic-analysis-shows-wannacry-authors-speak-chinese/
Frontiers in Ethology — Street smarts: a remarkable adaptation in a city-wintering Cooper’s hawk
https://www.frontiersin.org/journals/ethology/articles/10.3389/fetho.2025.1539103/full

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